O luto e o tempo

Por: Marina Fiuza / 2013 –

 
Um ano. Quem já perdeu alguém diz que o luto precisa conhecer as quatro estações antes de afrouxar suas rédeas. É necessário conhecer a vida na ausência do outro: aniversários, Natal, ano novo, dia dos pais, dia das mães… Só depois de um ano o coração desiste de esperar pela volta daquele que foi e, então, parte por outras buscas.
Dias de ansiedade antecediam as datas festivas. Minha dor era “maior que o mundo”, mas era mais fraca que o tempo que continuava a trazer novos dias. Junto com eles, vinham as lembranças ainda recentes de um tempo em que éramos completos. Ano passado ele me deu tal presente. Ano passado ele estava em tal lugar. Ano passado comemoramos de tal maneira.
Depois de trezentos e sessenta e cinco rodopios em volta do próprio eixo, completávamos a grande volta solar e chegávamos, enfim, àquele mesmo ponto espacial. A disposição dos astros nos devolvia a gravidade de outrora anunciando o seu primeiro aniversário de morte.
A todo instante eu olhava no relógio e experimentava um certo alívio. 12:00. Ele ainda estava vivo. Como será que ele se sentia aquele dia? O que ele comeu naquele último café da manhã? 12:45. Ele ainda estava trabalhando. Quais planos ele tinha para a empresa? 13:00. Ele ainda estava em casa. Quais foram os últimos objetos que ele tocou antes de sair de casa? 14:00. Ele estava se preparando para viajar. Será que ele pressentiu qualquer coisa? Será que sentiu alguma angústia ao sair de casa? 14:30. Ele estava com os amigos. Ele amava os amigos. Ele estava feliz. 14:55. Ele estava viajando. Não vá, meu irmão. Escute-me! Não siga viagem! 15:00. (…)
15:01. O ano estava concluído. À minha volta a mesma ausência presente, a mesma dor impregnada nas paredes, a mesma saudade exalando dos objetos. Hugo acabava de morrer novamente na minha lembrança sem que eu nada pudesse fazer para impedi-lo. Ainda estava muito longe de superar. Não dava para aceitar. Mas era hora de começar a acreditar.
No dia seguinte acordei com o coração mais leve, com uma repentina disposição para iniciar o novo ciclo que se estendia à minha frente, com novos desafios e diferentes propósitos. O desejo de trazê-lo de volta cedeu lugar, naturalmente, ao desejo de aceitá-lo distante. Desejo de fazer as pazes com a realidade que ele deixou.
Isso não é dizer que a dor passou. Nem que a dor abrandou. A morte do meu irmão continua sendo igualmente terrível e não acredito que será diferente nos próximos anos. Apenas me acostumei com sua ardência, assim como os casais que, ao compartilharem uma vida inteira sob o mesmo teto, passam a não se comover e nem se perturbar com a presença um do outro, embora saibam-se lado a lado. A dor habita todos os lugares em que eu esteja. Mas ao contrário do início de nosso trágico relacionamento, ela já me permite realizar minhas pequenas ações cotidianas sem pranto.
Antes dos 365 dias, quando vivia um instante de alegria – porque sim, momentos alegres continuaram acontecendo apesar de tudo –  eu logo estranhava os músculos da face abrindo num sorriso raro. Ao experimentar os hormônios da felicidade fazendo cócegas pelas minhas veias eu esquecia da tristeza, ainda que por uma fração de segundos. Impulsionada pelo estranhamento eu logo me perguntava por que é que eu estava triste mesmo? Então eu lembrava. Lembrava e me surpreendia novamente com a tragicidade da notícia.
Não poderia numerar quantas vezes a mesma notícia me pegou de surpresa. Noite passada sonhei que o via abrir os olhos. Eu dava pulos de alegria e mal conseguia gritar para os meus pais que o Hugo estava vivo novamente. Acordei e me deparei com a realidade inabalada. Hugo continuava morto. Pega de surpresa novamente.
Ao contrário dos primeiros meses, porém, suportei as contrações do meu coração sem fazer brotar lágrimas. Levantei da cama e fiz tudo o que tinha que fazer, embora lembrasse daquele movimento de pálpebras abrindo a cada instante.
Antes eu talvez não conseguisse me levantar. Nem tampar a fonte das lágrimas. Antes, se eu lembrasse da morte do Hugo enquanto caminhava na rua, por exemplo, meu passo ficava mais lento, a espinha curvada para o chão, como se me caísse sobre os ombros uma imensa carga pesada. Durante muito tempo tive a sensação de ter morcegos com os dentes cravados em meu pescoço, sugando meu sangue e me tirando as forças para realizar o mais simples movimento.
Mas depois do primeiro ano ficou diferente. Os sustos acontecem da mesma maneira, mas a dor ficou menos pesada. Passou a caber dentro de mim. Hoje a dor é mais silenciosa, mais íntima. Hoje a dor tem mais respeito por mim, permite-me muitos instantes de alegria sempre ascendente, alegria não interrompida. Hoje tenho, inclusive, medo da dor passar.
Sofrer a falta do meu irmão é a maneira de tê-lo presente em minha vida.  É como se houvesse um espaço vago constantemente a me lembrar da sua ausência. Porém, é sofrendo a ausência que o tenho por perto. Deixar de sentir sua falta seria perder nosso último elo, um elo chamado saudade.
Porque não me bastaria lembrar do meu irmão somente diante de um retrato. Não quero a “saudade boa”, de que as pessoas tanto falam. Quero a saudade latente, essa que me acorda os sentidos, que acelera o coração e aquece o sangue. Quero, como na noite passada, vê-lo abrir os olhos detalhadamente, com a nitidez que só a falta dolorosa é capaz de criar.
Para manter a saudade forte, alimento a falta com frequência. Aproveito meus instantes de solidão para me machucar com lembranças bonitas. Torturo-me com fotos, com vídeos, com objetos. Rezo. E choro, pela tristeza de não tê-lo mais. Mas choro, também, pela alegria de tê-lo sempre.

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