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O que dizer 1

O que dizer, se não há palavras?

A folha em branco recebeu alguns traços que percorreram um longo caminho nos meus pensamentos, entre o convite da Gláucia e a primeira marca de grafite sobre o papel.

Fui transportado pela ponta da lapiseira e pelo papel em branco para uma sala onde há pessoas que sofreram perdas irreparáveis. Tenho sido poupado - meu primeiro sentimento, de agradecimento à vida, ao acaso, ao que houver, possível.

Quero me aproximar daquele pai, sentar - me ao lado da outra mãe, ouvir melhor o que diz aquela moça viúva. Mas ainda não compreendo as palavras que dizem, estou analfabeto de alma naquela língua.

Criam-se alguns traços que fluem sem controle do meu coração para as mãos e se conformam numa figura em parte geométrica, em parte ex-votos numa capela do interior, talvez sombras de três moais da Ilha da Páscoa, imagens do passado que permanecem, superam o tempo e resistem ao esquecimento.

Aos poucos, o desenho reúne três pessoas e parece haver uma passagem entre elas, embora eu seja interrompido pela súbita ausência no olhar, do meio, do filho, do ente sempre presente, que se fecha em despedida, em permanente ausência.

A perda no meio do caminho. Há uma perda no meio do caminho, Drummond reescreveria diante de sua amada filha que se foi antes dele?

Nas cores do parentesco, são inegáveis as tonalidades do mesmo azul, permeadas por diferentes nuances do cinza, das cinzas.

Quem será o primeiro perplexo azul das profundezas dos mares onde descansam os náufragos e seus navios, aquele que se recolhe no silêncio da dor? Vejo que ele permanece calado, anatômico destituído de lábios, mas colado, tão próximo ao próximo azul que se desvanece, porque ainda sente o calor do filho, da filha, - de quem?

Percebo que são pessoas inseparáveis na sua dor ir reparável, mas também no seu amor insuperável.

Na outra ponta da sala - figura, do outro lado do triste meio, das sombras para o claro, alguém consegue entreabrir os lábios: é uma frase, é uma esperança, ou ainda é o pranto? Compreendo apenas que ali o silêncio se rompeu.

Como o silêncio, transforma-se o luto no reencontro da primeira com a última figura, em sentido contrário mas na mesma direção da linha da vida, que continua.

Numa única imagem, as três pessoas estão ligadas pelos mesmos limites da dor, na união espacial e especial que os forma como elos amáveis entre si para sempre: unidas pela dor e pelo reverso da dor.

Calo-me e admiro.

Lor