FERTILIZAR O VAZIO: evitando a angústia de fim de ano

“Cuidado para que os vossos corações não fiquem pesados
por causa dos excessos, da embriaguez e das preocupações da vida”.
(Lc 21, 34)

O fim de ano tende a ser compreendido como tempo de pressão e de pressa, levando ao cansaço crônico e ao estresse. Há cobranças por não se ter alcançado realizações, com o tempero ilusório de perfeição. Há exigência em se ocupar com muitas obrigações sociais e com as compras de uma enorme lista de presentes, correndo o risco de comprometer o orçamento doméstico. São comuns expressões do tipo: “vivo na correria” ou “não tenho tempo nem para respirar”.

As preocupações são tantas que se perde o convívio com o maior bem que a vida nos possibilita: a conexão com o tempo presente, levando à qualidade de presença. Há o perigo do desvio de atenção das coisas de Deus, impedindo-nos de reconhecer que cada tempo é tempo de graça.

“Eu estimo, como efeito, que os sofrimentos do tempo presente
não têm proporção como a glória que deve ser revelada em nós”.
(Rm 8.18)

A vida não é contra o mundo social, mas vale prestar a atenção, porque o excesso de demandas sociais e profissionais pode comprometer a qualidade de vida e de presença. Angústia é aperto, estreiteza, falta de tempo e de espaço em qualquer dimensão. O aperto vem da impossibilidade de se conectar com o vazio.

Tememos o vazio porque é desconhecido. De modo geral, conotamos negativamente a palavra vazio, reduzindo-a à falta ou à pobreza. Tornar o vazio fértil é fazê-lo produtivo, reconhecendo que é cheio de possibilidades e realizando aquilo que nutre a alma.

Não existe um mundo sem poder e nem vida sem vazio. A vida busca parceria e se relaciona com o mundo; o inverso não é garantido. O mundo está para a casca, que tem função de proteção, enquanto a vida está para a amêndoa, que é a essência. Se a proteção for desmedida, sufoca, aperta, impede a respiração.

“É por isso que nós perdemos a coragem; e mesmo se em nós, o homem exterior
se encaminha para a ruína, o homem interior se renova dia a dia”.
(2 Co 4,16)

O centro do mundo é a história, constituída por relatos do que aconteceu no passado. Quem fica refém do passado tende a se fixar em um padrão, baseando-se no que já foi. A energia da vida está na relação da memória, das experiências e também na abertura para contínuas revisões.

Quem está feliz não se fixa em momentos passados, vive, desfruta,
aprende e valoriza o presente, ampliando horizontes.

A vida flui porque o centro é vazio, abrigando a palavra de Deus, permitindo inúmeros desdobramentos. O fato da relação com a vida ser vazia, quer dizer que ela nao é predeterminada, permitindo inúmeras construções, transformações e reflorescimentos. O real é triste porque acaba. A vida é o espírito da alegria porque se atualiza continuamente. É a alegria de se encerrar um ciclo, abrindo-se para a nutrição, a renovação e o vigor.

O final de ano pode ser celebração e reconhecimento de momentos vividos e também um preparo para outros que poderão vir, para novos aprendizados e evolução. É tempo que pode ser amenizado com a introdução de ilhotas de silêncio, fazendo revisões dos atos e realizações e conexão com o espírito crítico.

Desdobra-se em vitalidade, força, respiração e possibilidade relacional. Podemos nos orientar a fazer escolhas que nos possibilitem estarmos mais vivos. Viver não é acumular poder; viver é se conectar com o pouco que faz bem. Viver bem é identificar o que é possível no momento, cooperando e buscando união.

Nossa condição de cristãos nos inspira a viver com a coragem de fertilizar o vazio, de conectarmos à alegria, de viver a vida apoiada na palavra e no destino de Jesus, que venceu o mal e a morte. A esperança cristã é a participação no destino final do Senhor.

Viver é respirar. Adotando a respiração não só como uma função fisiológica, mas também como disposição de se inspirar pelo que é essencial e expirar o que é supérfluo. Desa forma há flutuação com qualidade, o que leva à concentração, à calma, à tranquilidade e ao relaxamento.

“E, então, quando partirdes, não estareis de mãos vazias”.
(Ex 3,21)

Eduardo Carlos Tavares e Gláucia Rezende Tavares

GlauciaeEdu

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